Motta e Alcolumbre esvaziam o Congresso para conter os danos do escândalo do Banco Master
Os presidentes do Senado e da Câmara Federal, Davi Alcolumbre e Hugo Motta. A expressão que circula nos bastidores de Brasília é precisa: "operação abafa". Enquanto o escândalo do Banco Master se desdobra em novas revelações — incluindo o misterioso "envelope pardo" apreendido pela Polí Federal com a palavra "Congresso" —, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), articulam nos bastidores uma estratégia silenciosa, mas eficaz, para esvaziar o parlamento e evitar que as investigações avancem em ano eleitoral.
O caso, que envolve a liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central em novembro de 2025, suspeitas de fraudes em consignados e conexões com parlamentares e ministros do STF, poderia dominar a agenda legislativa. No entanto, a cúpula do Congresso trabalha para que o tema não ganhe centralidade .
O "freio de mão" das investigações
Os requerimentos para a abertura de uma CPI ou CPMI do Banco Master já superam há meses o número mínimo de assinaturas. No Senado, a pressão cresce, mas Alcolumbre mantém-se em silêncio, sem dar sinais de quando fará a leitura oficial do pedido em plenário — um gesto burocrático, mas essencial para dar início à comissão . Parlamentares da oposição já classificam a situação como um "limbo" político, onde as investigações simplesmente não andam.
Na Câmara, a estratégia é diferente, mas igualmente eficaz. Hugo Motta adotou um tom pragmático e sinalizou que o pedido envolvendo o Banco Master deverá seguir o rito da "fila" de comissões, decisão recebida por muitos como um entrave deliberado para postergar a instalação de qualquer colegiado investigativo .
O argumento do calendário eleitoral
O principal aliado de Motta e Alcolumbre nessa operação é, curiosamente, o calendário. Com as eleições de outubro no horizonte, o argumento da falta de "viabilidade pragmática" para investigações ganhou força. O próprio líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), já havia adiantado em janeiro que o esvaziamento típico do parlamento em ano eleitoral poderia inviabilizar uma CPMI .
Nos bastidores, a leitura é outra: o temor é que as investigações avancem justamente sobre as conexões parlamentares do banqueiro Daniel Vorcaro. Mensagens extraídas de seus celulares já mencionam contatos com figuras políticas de peso, como o senador Ciro Nogueira, o presidente do União Brasil Antonio de Rueda e o governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha . O "envelope pardo" apreendido pela PF, identificado com a palavra "Congresso", funciona como uma espada de Dâmocles sobre as cabeças de parlamentares de diferentes espectros ideológicos .
Uma CPI que não se instala e depoimentos que não acontecem
Enquanto isso, os poucos avanços ocorrem de forma fragmentada. O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, chegou a ser convocado para depor na CPMI do INSS e na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, mas os depoimentos foram cancelados ou postergados . No lugar do banqueiro, a CPMI do INSS ouviu a empresária Ingrid Pikinskeni Morais Santos, alvo da Operação Sem Desconto, em 2025 .
O argumento da defesa de Vorcaro para não comparecer foi sintomático: o banqueiro só iria à CPI se fosse para falar "apenas" sobre o objeto das apurações, temendo que o depoimento se tornasse um "circo" e "escada para palanque eleitoral" . Na prática, a estratégia de esvaziamento também parte dos investigados.
O Centrão e a blindagem institucional
Colunistas políticos apontam que o escândalo do Banco Master expõe uma atuação coordenada do Centrão para proteger seus quadros. Em janeiro, o Diario de Pernambuco publicou uma análise contundente: "Lideranças do Centrão no Congresso Nacional tornam-se, a cada dia, mais agressivas na tentativa de controlar ou influenciar instituições do mercado financeiro" .
A reportagem revela que políticos do grupo se mobilizaram para barrar desdobramentos e abafar informações que poderiam incriminar seus membros. Um dos episódios mais simbólicos foi a tentativa de um ministro do TCU, Jhonatan de Jesus — indicado pelo Congresso com forte articulação do Republicanos, partido de Hugo Motta — de reverter a liquidação do Banco Master, em uma medida considerada alheia às competências do tribunal .
O silêncio que fala mais alto
Enquanto o governo Lula tenta impulsionar pautas consideradas estratégicas, como a PEC da Segurança Pública e o fim da escala 6x1, o escândalo do Banco Master já começa a contaminar a agenda política. Parlamentares como Ismael Alexandrino (PSD) reconhecem abertamente que o caso "já contaminou e exige que o Congresso dê atenção a essa pauta" .
A resposta institucional, no entanto, segue bloqueada. O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), um dos articuladores da CPMI, já tem as assinaturas necessárias, mas esbarra no "rito" e no silêncio das presidências .
Como bem sintetizou o colunista Elio Gaspari, em artigo publicado em fevereiro, "o caso do Banco Master tornou-se radioativo" . Em Brasília, atira-se para todos os lados, menos para o alvo: as conexões de Vorcaro. E enquanto o Congresso se esvazia, a Polícia Federal segue trabalhando — guardando consigo os 52 aparelhos celulares do banqueiro que podem, a qualquer momento, reacender o fogo que Motta e Alcolumbre tentam apagar .



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