Indicação travada de Messias ao STF expõe a vulnerabilidade de Lula no Senado
Presidente tem tido derrotas pontuais na indicação de Jorge Messias. O que parecia ser uma tramitação protocolar transformou-se, nas últimas semanas, em um doloroso termômetro da fragilidade política do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Senado. A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) — um dos principais trunfos de nomeação à disposição do chefe do Executivo — emperrou diante da falta de articulação e da divisão na base aliada.
A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que deveria ter sido marcada ainda no primeiro trimestre, segue sem data definida. Nos bastidores, senadores relatos que o governo não conseguiu reunir os votos necessários para garantir a aprovação do indicado com margem de segurança. Mais do que isso: a resistência não se restringe à oposição. Aliados históricos do petista manifestam reservas em relação ao nome, e parte da base passou a condicionar o apoio à indicação à liberação de emendas e à celeridade na execução de obras nos estados.
O cenário expõe uma realidade incômoda para o Planalto. Diferentemente de governos anteriores, nos quais indicações para o STF eram tratadas como "questão de Estado" e costumavam ser referendadas com placares folgados, a gestão Lula enfrenta um Senado mais fragmentado e com maior autonomia em relação ao Palácio do Planalto. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que já demonstrou ter comando firme sobre os ritos na CCJ, também não tem atuado para acelerar a apreciação, em um sinal de que o governo ainda não ofereceu contrapartidas consideradas satisfatórias.
Do ponto de vista político, a demora em avançar com a indicação de Messias carrega um duplo significado. Em primeiro lugar, evidencia que o governo perdeu a capacidade de pautar a agenda do Legislativo com a fluência que se espera de um presidente que já ocupou o cargo por dois mandatos. Em segundo, revela que a articulação política, comandada pelo ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais), ainda patina para converter a capilaridade eleitoral da base em votos consistentes nas pautas sensíveis ao Planalto.
Para aliados, a demora também acirra uma disputa interna: nomes como os dos ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin, que já integram a Corte, foram ungidos com rapidez e apoio unânime; já a demora na consolidação do terceiro nome indica que o governo ainda não encontrou a fórmula para equilibrar critérios técnicos, perfil ideológico e articulação política.
Há ainda o desgaste simbólico. Ao expor publicamente a dificuldade de aprovar um nome escolhido diretamente pelo presidente, a sabatina adiada enfraquece a imagem de Lula como articulador nato e confere à oposição munição para protelar ainda mais a votação. Nos corredores do Senado, cresce a avaliação de que, se a situação não for revertida rapidamente, o governo poderá sofrer uma derrota de proporções significativas — ou ser forçado a recuar e indicar outro nome, o que representaria uma rara vitória do Parlamento sobre o Palácio do Planalto nesse tipo de deliberação.
A expectativa agora é que o governo intensifique as negociações nas próximas semanas, tentando costurar um acordo que envolva liberação de emendas, cargos em segundo escalão e maior previsibilidade na relação com o Congresso. Até lá, a vaga aberta no STF seguirá como um espelho das dificuldades de um governo que, na metade do mandato, ainda busca se firmar no terreno movediço das alianças parlamentares.



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