Senador obtém 23 assinaturas para investigar relações de Toffoli e Moraes com Vorcaro
Ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A crise política desencadeada pelo escândalo do Banco Master atingiu um novo patamar no Congresso Nacional. Parlamentares da oposição conseguiram reunir 23 assinaturas para um requerimento que pede a investigação das relações dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, atualmente preso .
O movimento ocorre em meio à divulgação de mensagens extraídas do celular de Vorcaro que indicam proximidade com autoridades dos três Poderes. As conversas, obtidas pela Polícia Federal e compartilhadas com a CPI do INSS, mostram que o empresário mantinha interlocução frequente com ministros do STF, líderes do Congresso e integrantes do governo federal .
As mensagens que acenderam o sinal de alerta
Entre os diálogos revelados, um dos mais contundentes é a troca de mensagens atribuídas a Vorcaro e Alexandre de Moraes no dia 17 de novembro de 2025, horas antes da primeira prisão do banqueiro. De acordo com a reportagem, Vorcaro teria enviado mensagens perguntando: "alguma novidade? conseguiu ter notícia ou bloquear?" . O ministro negou ter recebido as mensagens e afirmou que se trata de "ilação mentirosa no sentido de atacar o STF" .
As investigações também apontam que o número de celular atribuído ao ministro aparece na agenda de Vorcaro desde 26 de dezembro de 2023 . Em outro diálogo com a então namorada, Martha Graeff, Vorcaro afirmou em abril de 2025 que estava "indo encontrar Alexandre [de] Moraes aqui perto de casa", durante um feriado .
Dias Toffoli, que era o relator original das investigações sobre o Banco Master, também teve seu nome mencionado nas conversas. A agenda telefônica de Vorcaro continha o contato do ministro, e a proximidade política entre ambos era vista nos bastidores do Congresso como um fator que travava o avanço das investigações . Toffoli deixou a relatoria do caso após a Polícia Federal apresentar um relatório mencionando conversas entre Vorcaro e o ministro, e o inquérito foi redistribuído a André Mendonça .
O caminho para a investigação parlamentar
O requerimento protocolado no Senado, que já conta com 23 assinaturas, busca criar uma comissão específica para investigar o escândalo do Banco Master e, principalmente, as conexões políticas do banqueiro com integrantes do STF . No entanto, a instalação da CPI depende de um obstáculo significativo: a leitura do requerimento pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), em sessão conjunta das duas Casas .
O pedido para criar a CPI cozinha na gaveta de Alcolumbre há mais de um mês . Parlamentares ouvidos pelo GLOBO reconhecem, reservadamente, que há pouco espaço político e institucional para que as frentes de investigação avancem no curto prazo, justamente porque as conexões do banqueiro podem colocar o Congresso no centro do escândalo .
A resistência de Alcolumbre em instalar a CPI ganha contornos delicados quando se examinam as relações de Vorcaro com aliados do presidente do Congresso. Em novembro, O GLOBO mostrou que um aliado de Alcolumbre, Jocildo Lemos, se tornou alvo de questionamento no Amapá por levar o fundo de pensão do estado, a Amprev, a alocar R$ 400 milhões em papéis do Master. Além de Jocildo, Alberto Alcolumbre, irmão do senador, era conselheiro fiscal do fundo. Davi afirmou, à época, que não tem influência em nomeações ou decisões administrativas da Amprev .
Conexões com a cúpula do Congresso
As revelações não se limitam ao STF. Vorcaro mantinha relações próximas com importantes lideranças parlamentares. Em mensagens obtidas pela CPI, o banqueiro se refere ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do partido, como "um dos meus grandes amigos de vida" . Em agosto de 2024, Vorcaro comemorou uma emenda apresentada por Ciro durante a tramitação da PEC que trata da autonomia orçamentária do Banco Central. A proposta, que ficou conhecida como "emenda Master" por favorecer o banco, ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF .
Documentos obtidos a partir da quebra de sigilo telemático também indicam que uma empresa ligada ao empresário reservou um helicóptero para transportar Ciro e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, após o Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1. Ciro afirma que não utilizou a aeronave e diz ter deixado o local em uma van .
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), também aparece nos diálogos. Vorcaro relatou participação em um jantar com Motta e seis empresários na residência oficial da Câmara em fevereiro de 2025, pouco depois da eleição do parlamentar para o comando da Casa .
Frentes de investigação em andamento
Enquanto a CPI específica do Banco Master não avança, outras comissões têm tentado investigar o caso. A CPI do Crime Organizado no Senado já aprovou a convocação de Daniel Vorcaro, do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e do ex-ministro da Fazenda Paulo Guedes . A comissão também aprovou convites, que não obrigam comparecimento, para que Alexandre de Moraes e Dias Toffoli prestem esclarecimentos .
Na CPI do INSS, que está próxima do fim, o deputado Kim Kataguiri (União-SP) apresentou requerimentos para convocar Martha Graeff, ex-companheira de Vorcaro, e para convidar Alexandre de Moraes a prestar esclarecimentos sobre as mensagens interceptadas . O deputado Duarte Júnior (PSB-MA), vice-presidente da comissão, afirmou que pretende levar o tema ao colegiado .
Pressão política crescente
A divulgação das mensagens ampliou a pressão política sobre o STF. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) afirmou que a situação seria suficiente para justificar uma investigação. "Por muito menos o Alexandre de Moraes já teria prendido o Alexandre de Moraes. Esse cara precisa sair do STF. Não é impeachment, não, ele precisa ir direto para a prisão, responder por esses atos que não condizem com o magistrado" .
Nesta terça-feira (10), a oposição protocola mais um pedido de impeachment de Alexandre de Moraes, que também depende de Alcolumbre para andar .
O relator da CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou que os fatos revelados exigem investigação. "São fatos gravíssimos que exigem apuração rápida e transparente. Ao que tudo indica, nós temos relações, no mínimo, não republicanas entre ministros da Suprema Corte e um cidadão que hoje está preso e denunciado por fazer parte do crime organizado, com fraudes e golpes bilionários" .
Enquanto o Congresso debate os próximos passos, a decisão que decretou a nova prisão de Vorcaro será analisada pela Segunda Turma do STF em plenário virtual a partir da próxima sexta-feira (13). O colegiado é formado por Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça — o que significa que Toffoli voltará a se manifestar sobre o caso .



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