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Campo Grande,09/03/2026

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Inadimplência bate recorde no Brasil e ameaça se agravar com conflito no Irã


Inadimplência bate recorde no Brasil e ameaça se agravar com conflito no Irã Mercado reduz aposta em corte de juros e acende sinal amarelo para o governo na reunião do Copom.

O Brasil começou 2026 com um alarme econômico que não era acionado há quase uma década. Dados do Banco Central e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) revelam que a inadimplência no país atingiu o maior patamar desde 2017, com 73,30 milhões de consumidores negativados — o equivalente a 43,88% da população adulta brasileira . O cenário, já preocupante por si só, ganhou contornos ainda mais sombrios com a eclosão do conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que promete respingar com força na economia doméstica.

O calote generalizado não é fruto do acaso. A combinação de juros estratosféricos e renda comprimida criou um ambiente propício para o descontrole financeiro das famílias. A taxa básica de juros, a Selic, encontra-se em 15% ao ano — o patamar mais elevado em quase duas décadas . Com o dinheiro caro, o crédito ficou escasso: as concessões do sistema financeiro despencaram 18,9% em janeiro, e o spread bancário — a diferença entre o custo de captação e o que o banco cobra do cliente — saltou para 34,3 pontos percentuais, apertando ainda mais o orçamento de quem precisa de financiamento .

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema. Em janeiro, a inadimplência em empréstimos com recursos livres subiu para 5,5%, acumulando alta de 1,1 ponto percentual em 12 meses . O cartão de crédito, principal vilão das finanças familiares, concentra o maior volume de dívidas: 19 milhões de brasileiros estavam negativados nessa modalidade em 2025, enquanto empréstimos e cheque especial cresceram 7% no período, passando de 12,7 milhões para 13,5 milhões de registros .

A gravidade do quadro se revela também no perfil dos devedores. Mais da metade (52,71%) da população entre 30 e 39 anos está negativada — justamente a parcela mais ativa da força de trabalho brasileira . O crescimento mais expressivo, no entanto, ocorre entre dívidas de longo prazo: os calotes com 4 a 5 anos saltaram 34,30%, indicando uma dificuldade estrutural de reabilitação financeira, não apenas um descompasso momentâneo .

O fantasma de Ormuz

Se o cenário interno já era desafiador, a guerra no Oriente Médio chegou para embaralhar ainda mais as contas do governo e das famílias. Desde 28 de fevereiro, quando EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã, o preço do barril de Brent saltou de cerca de 73 dólares para ultrapassar os 100 dólares — uma alta de 37% . O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo, elevou o risco de que o barril alcance entre 120 e 150 dólares, repetindo o susto de 2022, quando a guerra na Ucrânia levou o preço a ultrapassar 130 dólares .

Para o Brasil, o impacto é múltiplo e perigoso. A XP Investimentos estima que um aumento de 10% no Brent produz um efeito de 0,25 ponto percentual na inflação brasileira . Com a guerra, a defasagem entre os preços praticados pela Petrobras e o mercado internacional já atingiu 2,74 reais por litro de diesel e 1,22 real na gasolina . A estatal resiste a reajustes há mais de 300 dias no diesel, mas a pressão aumenta: refinarias privadas já elevaram preços, e distribuidores repassam os aumentos mesmo sem movimento da petrolífera .

A consequência imediata é a inflação mais alta, que corrói o poder de compra e empurra mais famílias para o endividamento. O efeito colateral, porém, é igualmente devastador: a guerra pode travar o esperado ciclo de queda dos juros. Antes do conflito, o mercado projetava a Selic em 12% no fim de 2026. Agora, economistas alertam que o Banco Central pode ser forçado a interromper os cortes ou até elevar os juros, configurando o risco de estagflação — economia estagnada com inflação elevada .

"O Banco Central não pode ignorar as consequências do conflito ao calibrar os juros, já que a guerra adiciona uma nova camada de risco às perspectivas de inflação e crescimento", afirmou o diretor de política monetária da autarquia, Nilton David . No mercado de juros futuros, as taxas já dispararam, e os investidores passaram a apostar majoritariamente em um corte menor na reunião do Copom marcada para 17 e 18 de março — quando antes se esperava uma redução de 0,50 ponto, agora a aposta é de apenas 0,25 ponto .

Efeitos em cascata

O conflito também atinge em cheio setores estratégicos da economia brasileira, o que pode agravar ainda mais o desemprego e a renda — variáveis diretamente ligadas à capacidade de pagamento das famílias. O Oriente Médio absorveu 12,4 bilhões de dólares em produtos agrícolas do Brasil em 2025, com o Irã recebendo 23,6% desse total . O país persa é o maior comprador individual de milho brasileiro — 9 milhões de toneladas no ano passado, cerca de 22% de tudo que o Brasil exporta do grão — e importante mercado para a carne de frango .

Com o bloqueio no Estreito de Ormuz e o cancelamento de coberturas de seguro para embarcações na região, os custos de frete dispararam. Dez embarcações aguardam para carregar mais de 600 mil toneladas de soja e farelo com destino ao Irã — carga que, num conflito prolongado, teria de ser redirecionada a outros mercados, provavelmente a preços menos vantajosos .

Há ainda o risco no fornecimento de fertilizantes. O Brasil importa cerca de 85% dos insumos que consome, e o Irã responde por 11% da ureia e 5% da amônia comercializadas internacionalmente . Em 2025, 18,4% da ureia que chegou ao Brasil veio do Irã e de Omã — país cuja produção depende em parte do gás iraniano. O desabastecimento e o encarecimento desses insumos prejudicariam a produção agrícola, um dos motores da economia nacional .

O diagnóstico do governo

O governo Lula enfrenta o quarto déficit público consecutivo, com rombo projetado de R$ 22,91 bilhões para 2026 . A dívida bruta do governo geral subiu para 78,7% do PIB em 2025, alcançando R$ 10 trilhões — um aumento de 7 pontos percentuais no atual mandato . Para 2026, a previsão é que alcance 83,6% do PIB .

O Ministério da Fazenda projeta um impulso fiscal positivo de 0,6 ponto percentual em 2026, o que significa que os gastos públicos serão um motor do crescimento econômico. No entanto, especialistas alertam que a estratégia do governo de excluir despesas do cálculo da meta fiscal é arriscada. "O mercado cobra uma taxa de juros muito maior para financiar o país e por isso os juros estão em 15% ao ano. As exceções ao arcabouço são um problema", afirmou José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos .

José César da Costa, presidente da CNDL, resume a gravidade do momento: "Com 52,71% dos jovens adultos inadimplentes, estamos comprometendo a produtividade e o poder de compra da parcela mais ativa da nossa força de trabalho. Sem uma reversão dessa curva, o consumo das famílias continuará operando sob cautela, limitando o crescimento econômico sustentável" .

O Brasil chega a 2026 com um recorde incômodo de calotes e uma tempestade perfeita se formando no horizonte. A guerra no Irã, ao pressionar inflação e juros, ameaça transformar um quadro já grave em uma crise de proporções ainda maiores — com o consumidor brasileiro, mais uma vez, na linha de frente.




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