Lula aposta em renegociação de dívidas com bloqueio de CPF em bets e arrisca novo fracasso
Nos bastidores, a avaliação é que Lula aposta no Desenrola 2.0 como uma ferramenta eleitoral para conquistar votos de devedores. O governo Lula lançou oficialmente o Desenrola 2.0, nova versão do programa de renegociação de dívidas que, desta vez, inclui uma medida inédita: o bloqueio de CPFs de devedores que mantêm cadastro ativo em casas de apostas online, as chamadas bets. A ideia, segundo o Planalto, é impedir que cidadãos endividados destinem recursos à loteria virtual enquanto devem bancos e o comércio. Na prática, o governo pretende vincular a renegociação a uma espécie de fiscalização comportamental, condicionando o parcelamento de débitos à comprovação de que o devedor não aposta.
No entanto, críticos e especialistas em finanças públicas avaliam que o governo insiste em um plano fracassado. A primeira edição do Desenrola, lançada em 2023, teve adesão limitada e não reverteu o crescimento do endividamento familiar no país. Agora, ao relançar o programa com uma novidade espalhafatosa — o bloqueio de CPF em bets —, o governo corre o que economistas chamam de risco moral: a percepção de que o Estado sempre irá socorrer devedores, incentivando novos calotes e comportamentos irresponsáveis na expectativa de novos programas de renegociação.
Nos bastidores, a avaliação é que Lula aposta no Desenrola 2.0 como uma ferramenta eleitoral para conquistar votos de devedores. A lógica seria simples: ao oferecer descontos, parcelamentos longos e a promessa de limpeza do nome nos cadastros de proteção ao crédito, o governo tentaria angariar simpatia entre milhões de brasileiros negativados. O bloqueio de CPF em casas de apostas entra como um componente de retórica moralizante, capaz de agradar eleitores conservadores sem exigir fiscalização efetiva.
Porém, especialistas apontam que a medida fere princípios de proporcionalidade e pode ser de difícil execução. Compartilhar dados de inadimplência com plataformas de apostas ou bloquear preventivamente CPFs envolve questões sensíveis de proteção de dados e liberdade individual. Além disso, não há evidência de que o endividamento crônico do brasileiro se deva prioritariamente às bets, e sim à combinação de juros altos, baixa renda e ausência de educação financeira.
Assim, ao insistir em um modelo que já mostrou resultados limitados, o governo Lula corre o risco de aprofundar o moral hazard — premiando maus pagadores que contam com novos socorros estatais — sem atacar as causas estruturais do endividamento. Resta saber se o eleitorado comprará a ideia de que o Desenrola 2.0 é uma solução, e não apenas mais uma tentativa eleitoreira de vender alívio temporário em ano eleitoral.



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