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Campo Grande,20/05/2026

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Juros altos, fertilizantes mais caros e crédito restrito transformam colheita recorde em dor de cabeça para o agro de MS

Apesar de volume recorde de soja em 2025/2026, produtores de MS enfrentam custos disparados, juros altos, crédito restrito e preços em queda


Juros altos, fertilizantes mais caros e crédito restrito transformam colheita recorde em dor de cabeça para o agro de MS Em Mato Grosso do Sul, alta de 19,2% na produtividade da soja convive com queda de 37% no preço da saca e explosão de custos.

Mato Grosso do Sul se prepara para colher a maior safra de soja de sua história no ciclo 2025/2026. No entanto, os produtores rurais do Estado enfrentam um cenário de margens cada vez mais apertadas, com o lucro em queda impulsionado por uma combinação de fatores: alta dos fertilizantes, juros elevados, restrição no crédito rural, desvalorização da soja e incertezas climáticas para a próxima temporada.

De acordo com o Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio (Siga-MS), o Estado estima uma colheita de 17,7 milhões de toneladas de soja — o maior volume já registrado em Mato Grosso do Sul. A produtividade média projetada é de 61,73 sacas por hectare, um crescimento de 19,2% em relação ao ciclo anterior. Mesmo diante dessa supersafra, o ganho financeiro do produtor diminuiu.

O analista de economia da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), Raphael Gimenes, afirma que a boa produtividade deixou de ser suficiente para assegurar rentabilidade no campo. “Mesmo com alta produtividade, muitos produtores obtêm margens financeiras menores devido ao aumento simultâneo dos custos de produção e à volatilidade dos preços agrícolas. A rentabilidade não depende apenas da quantidade produzida, mas da relação entre receita, custos e eficiência comercial”, explica ao Correio do Estado.

Segundo ele, a alta de fertilizantes, defensivos, frete e demais insumos reduziu significativamente o resultado líquido da atividade. “Nos últimos meses, fatores geopolíticos e oscilações no mercado internacional elevaram tanto o preço das commodities quanto o dos insumos. Assim, mesmo com recuperação parcial dos preços da soja e do milho, o avanço dos custos operacionais comprime o resultado líquido”, acrescenta.

Na avaliação do analista de economia da Aprosoja-MS, Linneu Borges, o momento exige cautela diante das incertezas internacionais. “As condições globais estão voláteis, e qualquer mudança gera efeito para o produtor. Como são variáveis externas ao seu controle, ele se torna refém das decisões estrangeiras”, avalia. O aumento do preço do petróleo e dos fertilizantes, aliado às dificuldades no crédito rural, obriga o produtor a reforçar o planejamento financeiro.

Enquanto o custo da soja teve alta moderada (cerca de 2% entre as duas últimas safras), o milho apresentou avanço mais expressivo, na casa dos 8%. “Boa parte das despesas de custeio da lavoura teve alta significativa. Esse custo desfavorável é representado pela diminuição da participação do milho na segunda safra e pelo surgimento de outras culturas no mesmo período”, detalha Borges. Atualmente, o milho safrinha ocupa cerca de 48% da área cultivada com soja em MS, porcentual bem abaixo dos cerca de 71% registrados em outros anos.

O coordenador técnico da Aprosoja-MS, Gabriel Balta, afirma que os produtores passaram a antecipar a compra de fertilizantes para tentar reduzir riscos em meio às turbulências internacionais. “No Mato Grosso do Sul, o produtor rural tem se antecipado cada vez mais no planejamento da compra de fertilizantes, em um cenário marcado por custos elevados e maior exigência de eficiência nos investimentos”, explica. O momento exige decisões cada vez mais técnicas: “aumenta a demanda por embasamento científico que sustente cada decisão”.

Balta alerta ainda que, apesar da recomposição dos estoques nacionais de fertilizantes, as importações em Mato Grosso do Sul tiveram forte retração: queda de 48% nas importações de nitrogênio, 19% de potássio e 93% de fosfatados. “O cenário aumenta a pressão sobre os fertilizantes, agravada por conflitos internacionais e pela intensificação da competição global”, afirma.

Crédito rural mais caro e recuperações judiciais em alta

Além do encarecimento da produção, o agro sul-mato-grossense enfrenta dificuldades para acessar crédito rural. Segundo Raphael Gimenes, o aumento dos juros fez os bancos endurecerem as exigências para financiamentos, especialmente para médios e pequenos produtores. “As instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rígidos de concessão, aumentando exigências de garantias e reduzindo a oferta de linhas subsidiadas.”

Dados do Banco Central apontam retração de aproximadamente 15% nas operações de custeio rural entre março e abril deste ano em Mato Grosso do Sul. Já nas linhas de investimento e industrialização, a queda média chegou a 40,8%. “Os produtores têm evitado financiamentos de longo prazo devido ao elevado custo financeiro e ao aumento do risco de endividamento”, afirma Gimenes.

A deterioração financeira já aparece nos tribunais. Conforme antecipou o Correio do Estado, dados da Serasa Experian mostram que Mato Grosso do Sul registrou 216 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025 — aumento de 118% em relação a 2024 e crescimento de 756% na comparação com 2023 (apenas 25 pedidos). “Reflexo direto do cenário de juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos de produção e redução das margens do produtor rural”, destacou Gimenes.

Riscos para a próxima safra e o El Niño

A preocupação agora se volta para a próxima safra e para os possíveis impactos do El Niño. Segundo Gabriel Balta, o risco existe principalmente se os produtores reduzirem investimentos em tecnologia e manejo para cortar custos. “O produtor tende a direcionar investimentos de forma a garantir retorno, especialmente na adubação. Já no controle de pragas, plantas daninhas e doenças, a redução de investimentos pode comprometer a eficiência do manejo”, alerta.

Balta ressalta que sementes de menor tecnologia podem exigir mais aplicações defensivas, aumentando os custos operacionais ao longo do ciclo e podendo resultar em queda de produtividade. “Em situações mais extremas, o cenário pode levar até mesmo ao abandono da lavoura”, conclui.




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