Flávio Bolsonaro tenta reverter desgaste e reconquistar o mercado financeiro
Após áudio com banqueiro abalar pré-campanha, senador faz reuniões no coração financeiro de São Paulo em busca de apoio; mercado, porém, já começa a precificar cenários alternativos
Faria Lima quer previsibilidade fiscal, não lealdade partidária e o áudio vazado jogou contra o que restava de confiança em Flávio. Entre encontros reservados em salas envidraçadas nos edifícios da Avenida Faria Lima, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarca em São Paulo nesta semana para uma missão delicada: recuperar a confiança do mercado financeiro, abalada pela revelação de um áudio em que negociou recursos com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro .
Os encontros, que se estendem entre quarta (20) e quinta-feira (21) — com uma das reuniões prevista no BTG Pactual —, representam a primeira grande tentativa de contenção de danos da pré-campanha presidencial do senador. Na avaliação de representantes do setor financeiro ouvidos reservadamente, antes do vazamento do áudio, Flávio era considerado o principal nome da oposição com potencial de derrotar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pela reeleição em outubro .
A divulgação do áudio no dia 13 de maio pelo The Intercept provocou uma reação imediata e severa nos ativos brasileiros. O dólar disparou mais de 2% em um único dia, ultrapassando a barreira dos R$ 5,00, enquanto o Ibovespa recuou e os juros futuros avançaram — movimento interpretado por analistas como aumento do risco político e da instabilidade eleitoral .
O impacto também foi sentido no Polymarket, plataforma de apostas que se consolidou como termômetro informal do humor político global. As apostas na vitória de Flávio Bolsonaro despencaram 13 pontos percentuais em apenas uma sessão, chegando a 28% no pior momento, enquanto Lula assumiu a liderança com cerca de 45% de probabilidade implícita de vitória .
O que o mercado financeiro realmente quer
Por trás das oscilações cambiais e da queda da bolsa, há uma preocupação estrutural que vai além do episódio específico envolvendo Vorcaro. O que mais incomoda nos bastidores da Faria Lima não é necessariamente o conteúdo das conversas vazadas, mas a contradição entre o discurso público do senador e sua conduta privada — e, mais do que isso, a perda de previsibilidade eleitoral .
Para o consultor financeiro Carlos Henrique, "o mercado vinha precificando parcialmente a hipótese de fortalecimento de uma candidatura de oposição com perfil percebido como mais alinhado à agenda liberal e à contenção da expansão fiscal. Quando um evento reputacional reduz a viabilidade eleitoral desse candidato, ocorre ajuste automático dos prêmios de risco" .
Na prática, o que a Faria Lima busca é previsibilidade fiscal. A preocupação não é partidária, mas sim pragmática: quem terá força política para sustentar uma agenda de controle de gastos, previsibilidade tributária e melhora da relação dívida/PIB?
As promessas liberais de Flávio
Durante os encontros com investidores, o senador deve reafirmar seu compromisso com uma agenda liberal na economia — redução de impostos, desburocratização, privatizações e maior aproximação com o setor privado . Em artigo publicado no Brazil Journal, porta-voz da Faria Lima, Flávio defendeu o "TESOURAÇO" — uma adaptação nacional da "motosserra" do argentino Javier Milei — com cortes drásticos de gastos públicos .
Nos bastidores, aliados do senador já articulam a possibilidade de um ministro da Economia alinhado ao neoliberalismo, e o nome de Daniella Marques Consentino, ex-secretária do Ministério da Economia no governo Bolsonaro, é descrito por banqueiros e investidores como uma espécie de "Paulo Guedes de saias" .
Mas a percepção predominante entre os operadores financeiros é de cautela — e de uma constatação incômoda. "O pior cenário não é Flávio perder, é ele não perder nem ganhar", resume um gestor de recursos ouvido pelo Valor . Nas mesas de tesouraria dos grandes bancos, a avaliação é de que o episódio representou o início do quarto mandato de Lula .
Isso porque a situação atual — um candidato avariado, mas não inviabilizado — é a que mais gera incerteza. Se Flávio se enfraquece a ponto de se tornar inviável, abre-se espaço para uma "terceira via" mais palatável ao mercado, como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) ou o goiano Ronaldo Caiado (PSD) . Se permanece forte, mantém-se a possibilidade de vitória da oposição. Mas se fica nesse limbo, a reeleição de Lula se torna progressivamente mais provável .
Fragmentação da direita e alternativas
A crise também reacendeu discussões sobre a reorganização do campo da oposição. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, classificou a atitude de Flávio como "imperdoável" — um sinal de que o racha na centro-direita já está em curso e sendo precificado pelo mercado . No Polymarket, candidatos alternativos como o influenciador Renan Santos saltaram de 5% para 10% das apostas após a divulgação do áudio .
Ainda assim, interlocutores do setor financeiro reconhecem que, com Flávio na corrida presidencial, nenhum outro candidato da oposição consegue acumular votos suficientes para chegar ao segundo turno . O dilema da Faria Lima, portanto, é preciso: ou se aposta na recuperação do senador, ou se torce por uma alternativa que, até o momento, não decolou nas pesquisas.
O fator estrangeiro
Curiosamente, os investidores internacionais parecem menos preocupados que os locais. A quarta-feira (14) foi de calma nos mercados, surpreendendo analistas, e estrangeiros aproveitaram o desconto criado pela turbulência política local para comprar ativos brasileiros .
Para esses investidores, um quarto mandato de Lula é descrito como algo "completamente conhecido" — ainda que reconheçam que o Brasil tem um problema fiscal que precisa ser resolvido . A diferença de percepção entre o mercado local e o global revela um aspecto central: para quem está fora, o risco Brasil já está precificado; para quem está dentro, a eleição é existencial.
O que esperar
A estratégia da pré-campanha de Flávio Bolsonaro, além das reuniões com investidores, envolve ampliar viagens, reforçar agendas públicas e aumentar a presença em entrevistas . Nos bastidores, aliados também preparam uma ofensiva mais agressiva contra o governo Lula, tentando associar o caso Master a grupos políticos próximos ao PT .
Para o mercado, no entanto, o tempo é um fator crítico. "Lula deve ampliar sua vantagem sobre Flávio, e quanto mais perto da eleição isso se consolidar, mais provável se torna a vitória de Lula", afirmou um gestor de um grande asset local .
As pesquisas eleitorais que vierem a público nos próximos dias serão, portanto, decisivas. Se mostrarem danos severos à imagem do senador, cresce a chance de sua desistência — e a consequente busca por um nome alternativo. Se mostrarem resiliência, o mercado pode voltar a apostar na viabilidade de uma vitória da oposição. Mas enquanto permanecer no limbo, a Faria Lima continuará operando em modo de alerta, com os olhos fixos nas urnas e nos medidores de risco.



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