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Campo Grande,21/02/2026

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O plano de Trump para criar um estoque de terras raras que coloca o Brasil na mira dos EUA


O plano de Trump para criar um estoque de terras raras que coloca o Brasil na mira dos EUA Presidente norte-americano Donald Trump.

No início de fevereiro de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou o “Projeto Vault” (ou “Projeto Caixa-Forte”), uma iniciativa ambiciosa para criar uma reserva estratégica de minerais críticos. Motivada por um cenário de crescente tensão geopolítica e pela dependência americana da China — que controla cerca de 70% da mineração global e impressionantes 90% da capacidade de processamento de terras raras —, a estratégia americana coloca o Brasil no centro do tabuleiro geoeconômico mundial .

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Mas o que está em jogo não é apenas a venda de minério. O Projeto Vault expõe uma disputa profunda entre a necessidade dos EUA de diversificar suas fontes e a ambição do Brasil de não repetir o papel histórico de mero exportador de commodities. O desfecho desse impasse definirá se o país será um fornecedor periférico ou um elo industrial relevante na cadeia de tecnologia ocidental.

O Projeto Vault é um choque de capitalismo de estado orquestrado pelo EXIM Bank (Export-Import Bank of the United States). Com um fundo de US$ 10 bilhões em empréstimos diretos, somados a outros US$ 2 bilhões da iniciativa privada, Washington busca financiar projetos no exterior para abastecer sua indústria de defesa, veículos elétricos e alta tecnologia.

O plano não se limita a comprar minério. Ele prevê acordos de longo prazo, participação acionária em mineradoras e a criação de um “bloco comercial preferencial” que pode incluir mecanismos como pisos mínimos de preço para proteger os aliados da “concorrência predatória” chinesa. É neste contexto que o Brasil, detentor da segunda maior reserva global de terras raras, surge como peça-chave.

Longe de ser uma promessa vaga, o interesse dos EUA já se materializou em cifras e contratos. O EXIM Bank emitiu cartas de interesse que somam mais de US$ 500 milhões para projetos brasileiros. O principal alvo é o Projeto Caldeira, da australiana Meteoric Resources, em Poços de Caldas (MG), que pode receber US$ 250 milhões para explorar um raro depósito de argilas de adsorção iônica — o mesmo modelo de baixo custo e baixo impacto ambiental usado pela China.

Além disso, a mineradora Serra Verde, em Goiás, fechou um acordo de US$ 565 milhões com o governo americano, que inclui até mesmo a opção de participação acionária dos EUA na empresa. O CEO da companhia declarou que o objetivo é construir “cadeias de valor independentes” da China.

O entusiasmo do mercado foi imediato: ações de empresas como Aclara Resources (dona do Projeto Carina) e Viridis Mining (Projeto Colossus) dispararam até 12% na esteira do anúncio, sinalizando a confiança do capital internacional na entrada do Brasil na rota preferencial americana.

Soberania e Agregação de Valor

Se o capital americano chegou com facilidade, o mesmo não se pode dizer da diplomacia. O governo Luiz Inácio Lula da Silva recusou a adesão ao pacto global proposto por Trump. Enquanto Argentina e outros 13 países assinaram o acordo, o Brasil bateu o pé.

O modelo americano exigia que os países signatários destinassem suas reservas prioritariamente aos EUA e não priorizassem relações comerciais com a China no setor. Para Brasília, isso representaria um “arranjo desequilibrado” que condenaria o Brasil a repetir o ciclo colonial de exportar insumos brutos e importar tecnologia de ponta.

A posição brasileira é clara: não há urgência para aceitar o arranjo. O país quer usar seu subsolo estratégico como moeda de troca para atrair não apenas financiamento, mas plantas de processamento, transferência de tecnologia e centros de pesquisa. A estratégia é internalizar no país as etapas de separação e refino dos minérios — o “gargalo” da cadeia onde hoje a China exerce hegemonia absoluta.

Ofensiva Diplomática

Enquanto segura o tom com Washington, o Brasil não cruza os braços. O presidente Lula prepara uma visita à Índia para assinar um acordo de cooperação em terras raras, demonstrando que, se os EUA não oferecerem condições vantajosas, há outros players dispostos a negociar.

Paralelamente, o governo sinaliza que o tema pode ser discutido na reunião entre Lula e Trump, marcada para março de 2026. O Itamaraty, no entanto, resiste à ideia de usar os minerais como “barganha” para a retirada de tarifas americanas, classificando a pressão como injustificada.

Especialistas ouvidos pela imprensa apontam que o Brasil vive um momento decisivo. Por um lado, o Projeto Vault é uma oportunidade única para atrair investimento externo massivo e construir, enfim, uma cadeia industrial de minerais críticos. Por outro, há o risco real de o país se tornar apenas uma “colônia mineral” do Ocidente, exportando concentrado barato e importando ímãs e baterias caros.

Como resumiu um analista, “o Brasil está preparado em recurso, mas parcialmente em execução industrial”. O “ouro do século 21” está no solo, mas a grande riqueza está na capacidade de transformá-lo. A resposta do Brasil ao Projeto Vault definirá se o país será apenas a mina do mundo ou se finalmente conquistará um lugar no seleto clube das nações que dominam a tecnologia do futuro.




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