As ligações entre Toffoli, Vorcaro e o Banco Master que abalaram o STF
De mensagens ao resort e os vínculos que levaram o afastamento do ministro Dias Toffoli a ser trocado da relatoria do caso
Ligações entre o Ministro do Supremo e empresário investigado gerou afastamento e desconforto na corte. A investigação que envolve o Banco Master, seu controlador Daniel Vorcaro e supostas fraudes bilionárias ganhou contornos explosivos nos últimos meses, com revelações que conectam o nome do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao centro da apuração. As descobertas culminaram em uma decisão inédita: a troca de relatoria do caso, que passou de Toffoli para o ministro André Mendonça em fevereiro de 2026 .
A origem da polêmica remonta a novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero. Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando se preparava para embarcar para Dubai, sob suspeita de comandar um esquema de fraudes que pode chegar a R$ 17 bilhões . O caso subiu ao STF após a defesa do banqueiro argumentar que, durante as buscas, foi encontrado um documento mencionando um deputado federal com foro privilegiado .
Por sorteio, Toffoli tornou-se relator do processo em 28 de novembro de 2025 . O que parecia uma tramitação rotineira no Supremo, no entanto, começou a ser questionada quando vieram à tona informações sobre relações empresariais e pessoais entre o ministro e pessoas ligadas a Vorcaro.
O ponto central das revelações é o resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no Paraná. O empreendimento de alto padrão, com diárias que podem chegar a quase R$ 10 mil, pertenceu a uma empresa da família de Toffoli — a Maridt Participações, administrada por seus irmãos . Entre 2021 e 2025, os irmãos do ministro dividiram o controle do resort com o fundo de investimentos Arleen, que integra a rede de negócios montada por Vorcaro .
A venda da participação acionária foi concluída em 2025 para um grupo sem relação com a instituição financeira, mas o episódio levantou suspeitas sobre a imparcialidade do ministro para conduzir investigações que envolvem justamente o banqueiro ligado ao fundo que adquiriu parte do empreendimento familiar .
Além da conexão empresarial, reportagens revelaram que Toffoli viajou para Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores na companhia de um advogado ligado a executivos investigados no inquérito . O episódio foi citado em representações que pediam o afastamento do ministro da relatoria.
Outro fator que alimentou as críticas foi o deslocamento de seguranças do STF para a região do resort durante feriados, fins de semana prolongados e períodos de recesso. Ao todo, foram 128 dias de deslocamentos, com custo estimado em R$ 460 mil em diárias .
Embates com a PF e controle do processo
Durante o período em que esteve à frente do caso, Toffoli adotou medidas que geraram atritos com a Polícia Federal. O ministro determinou o mais alto grau de sigilo sobre a investigação e manteve as provas armazenadas em seu gabinete, justificando a necessidade de “evitar vazamentos que pudessem prejudicar as investigações” .
A tensão ficou explícita durante a audiência realizada em 30 de dezembro de 2025, que colocou frente a frente Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. O gabinete de Toffoli elaborou uma lista com 82 perguntas para serem feitas ao banqueiro, incluindo questões que pediam que Vorcaro avaliasse se o Banco Central agiu com “a celeridade necessária” na investigação das fraudes atribuídas a ele .
A delegada Janaina Palazzo recusou-se inicialmente a fazer as perguntas elaboradas pelo gabinete do ministro, argumentando que só poderia formular questões de sua própria autoria. Foi necessário que o juiz auxiliar Carlos Vieira von Adamek consultasse Toffoli por telefone para obter autorização para que as perguntas fossem feitas, com o devido registro nos autos de que eram questões do relator .
A condução do processo por Toffoli também incluiu a rejeição de todos os pedidos de nulidade apresentados pelas defesas dos investigados e o indeferimento de um pedido de composição amigável apresentado pelos advogados de Vorcaro .
Pressão política e saída de Toffoli
A combinação de revelações sobre conexões empresariais, atritos com a PF e questionamentos sobre imparcialidade gerou um ambiente insustentável. Parlamentares da oposição passaram a pressionar pelo afastamento de Toffoli da relatoria, embora um pedido formal tenha sido rejeitado pela Procuradoria-Geral da República .
A situação chegou a um ponto crítico quando a Polícia Federal encontrou, no telefone celular de Vorcaro, mensagens com menções ao ministro Toffoli. Embora o conteúdo não tenha sido divulgado, a descoberta acelerou os acontecimentos .
Em 12 de fevereiro de 2026, os dez ministros do STF assinaram uma nota conjunta afirmando que, “considerados os altos interesses institucionais”, foi acolhida a comunicação de Toffoli para se afastar da relatoria . Um novo sorteio foi realizado, e o ministro André Mendonça tornou-se o novo relator do caso.
A ausência de uma declaração formal de suspeição por parte de Toffoli gerou debates jurídicos. Especialistas apontaram que a Lei Orgânica da Magistratura Nacional prevê hipóteses como impedimento, suspeição ou afastamento administrativo para a substituição de um juiz. A falta de formalização nesses moldes levantou questionamentos sobre a garantia do juiz natural .
Defesa avalia nulidades, mas nega pedido imediato
Diante da troca de relatoria sem declaração formal de suspeição, a defesa de Vorcaro passou a avaliar a possibilidade de pedir a nulidade do processo. Entre as possibilidades discutidas estava a apresentação de recurso em cortes internacionais, alegando violação da garantia do juiz natural .
No entanto, a estratégia não é consensual entre os advogados do banqueiro. Há avaliação interna de que um movimento dessa natureza poderia gerar tensão institucional com o STF, levando parte da equipe jurídica a defender uma atuação mais cautelosa .
Em nota divulgada após a repercussão do caso, a defesa de Vorcaro negou que exista, neste momento, a intenção de pedir a nulidade. O comunicado afirma que a estratégia continua sendo o esclarecimento do mérito pelas vias legais adequadas, com apresentação de elementos para comprovação dos fatos .
Os advogados do banqueiro — Pierpaolo Bottini, Roberto Podval e Sérgio Leonardo — mantêm unidade contra qualquer possibilidade de delação premiada, estratégia que colocaria em xeque a atuação deles no processo, especialmente pela relação que mantêm na defesa de nomes do mercado e da política eventualmente implicados no caso .
Próximos passos
Com a nova relatoria de André Mendonça, a expectativa é que a Polícia Federal envie um novo relatório sobre o caso até a segunda-feira (23) [título da matéria]. O ministro terá pela frente o desafio de conduzir uma investigação que já nasceu cercada de controvérsias e que envolve não apenas supostas fraudes bilionárias, mas também questionamentos sobre a própria atuação do STF.
Enquanto isso, Toffoli segue como ministro da Corte, mas com sua imagem publicamente associada a um caso que expôs as conexões entre o mundo dos negócios e o Judiciário. O episódio reacendeu o debate sobre a necessidade de maior transparência e rigor ético nas relações entre magistrados e investigados, especialmente quando estão em jogo bilhões de reais e a credibilidade das instituições.



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